Entenda o impacto cultural e econômico da ausência de Ring Girls no primeiro UFC na Arábia Saudita e compare UFC, WGP, RIZIN e ONE Championship.
A ausência das Ring Girls no primeiro evento do UFC na Arábia Saudita não foi apenas uma mudança visual.
O episódio expôs como uma função tradicional de eventos de combate depende do mercado, do contrato, da cultura local e do modelo de negócio adotado por cada organização.
Em 22 de junho de 2024, o UFC realizou seu primeiro evento na Arábia Saudita, na Kingdom Arena, em Riade. O card foi formado exclusivamente por homens e não teve as tradicionais Ring Girls. A imprensa chamou o episódio de veto, mas não foi divulgado um comunicado oficial do UFC ou das autoridades sauditas explicando formalmente a decisão.
O caso também não significa que mulheres tenham sido definitivamente excluídas dos eventos do UFC no país. Em fevereiro de 2025, a organização realizou a primeira luta feminina em um card na Arábia Saudita.
A principal conclusão da época foi que a presença de Ring Girls deixou de ser um elemento automático quando uma organização global, passou a operar em um ambiente cultural e comercial diferente. Ao mesmo tempo, outras promoções mostram que a função pode ser adaptada, regionalizada ou transformada em uma plataforma de entretenimento, música, redes sociais e relacionamento com fãs.
O que aconteceu no primeiro UFC na Arábia Saudita?
O evento realizado em Riade foi o UFC Fight Night: Whittaker vs. Aliskerov.
A página oficial do UFC confirma que o card ocorreu em 22 de junho de 2024, na Kingdom Arena. Robert Whittaker enfrentou Ikram Aliskerov na luta principal.
A ESPN informou que as Ring Girls não apareceram na pesagem cerimonial e também não estavam presentes na abertura do evento. A mesma reportagem registrou que não havia nenhuma mulher entre os 22 atletas escalados para as 11 lutas.
Esses fatos foram percebidos como uma decisão coordenada porque ocorreram no mesmo evento ainda assim, é importante separar o que foi observado daquilo que foi interpretado.
A ausência das Ring Girls é um fato documentado e a inexistência de lutas femininas também. Já a afirmação de que houve uma proibição oficial exige uma fonte direta que não foi apresentada nas reportagens consultadas da época.
Por isso, a formulação mais precisa é: o UFC adaptou a apresentação do primeiro evento na Arábia Saudita e não utilizou Ring Girls nem atletas mulheres naquele card.
Por que a palavra “veto” precisa ser usada com cuidado?
As publicações naquele momento não reproduziram que era um regulamento, uma decisão administrativa ou uma declaração oficial dizendo que o governo saudita havia proibido as profissionais.
Essa diferença é importante porque uma organização pode deixar de contratar Ring Girls por razões distintas. A decisão pode decorrer de uma exigência do local, de negociação contratual, de uma escolha de produção, de limitações de vestuário, de estratégia de posicionamento ou da vontade de evitar um conflito com autoridades e parceiros.
A relação com o contexto cultural saudita foi uma hipótese forte, mas continua sendo uma interpretação apoiada pelo cenário e não uma explicação formalmente confirmada. Esse cuidado também evita um erro recorrente no jornalismo esportivo, e transformar uma observação feita em uma edição específica em uma regra permanente para todo o país, ou para todos os eventos futuros.
O peso cultural da decisão
Em grande parte dos eventos ocidentais de boxe, kickboxing e MMA, a Ring Girl é apresentada como parte natural do espetáculo, participando de fotografias, aparecendo em materiais promocionais e ajudando a compor a identidade visual da arena.
Quando esse elemento desaparece, o público percebe a mudança porque ela afeta uma convenção visual repetida durante décadas. A discussão deixa de ser apenas sobre a utilidade de mostrar o número do round. Passa a envolver quem pode ocupar o espaço cênico de um evento esportivo, que tipo de imagem a organização quer transmitir e quais limites culturais são negociados para realizar o espetáculo.
Na Arábia Saudita, o contexto era especialmente sensível porque o UFC estava estreando em um mercado que ampliou rapidamente sua presença em esportes e entretenimento, mas mantém regras sociais diferentes das encontradas em muitos dos países onde a organização tradicionalmente atua.
A retirada das Ring Girls pode ser lida, portanto, como uma forma de localização cultural do produto, e o UFC preservou o núcleo esportivo do evento, mas abriu mão de um componente visual associado à sua apresentação internacional.
Essa localização não elimina o debate sobre igualdade ou representação, pois ela apenas mostra que organizações globais costumam adaptar seus produtos para entrar em mercados com regras, expectativas e parceiros diferentes.
O impacto econômico não está no cachê das Ring Girls
Não há dados públicos suficientes para calcular quanto a ausência das Ring Girls economizou ou custou ao UFC naquele evento, e também não existe evidência pública que permita atribuir mudança de vendas, audiência ou bilheteria especificamente à retirada das profissionais.
O impacto econômico precisa ser observado em uma escala maior.
A decisão ocorreu dentro da entrada do UFC na Arábia Saudita, um movimento que envolve direitos de transmissão, patrocínio, venda de ingressos, hospitalidade, turismo, produção local e posicionamento internacional.
A Saudi General Entertainment Authority participou da parceria que viabilizou o primeiro card, e a chegada do UFC fez parte de um movimento mais amplo de atração de propriedades esportivas e de entretenimento para o país.
O Council on Foreign Relations descreve os investimentos sauditas em esporte como parte da Vision 2030, estratégia que pretende diversificar a economia para além do petróleo, estimular turismo, emprego, investimento estrangeiro e atividades de entretenimento. A mesma análise registra que críticos interpretam os investimentos como uma tentativa de melhorar a reputação internacional do país, usando o termo sportswashing.
Um estudo do Project on Middle East Political Science acrescenta que os investimentos esportivos do Golfo não têm uma única motivação. Competição regional, diversificação econômica, construção de prestígio nacional, projeção internacional e soft power podem atuar ao mesmo tempo. O estudo também alerta que investimento esportivo não garante automaticamente lucro, reputação positiva ou influência política.
Nesse quadro, a ausência das Ring Girls funciona como um pequeno sinal dentro de uma operação econômica muito maior, com a decisão podendo ter reduzido um possível atrito cultural e facilitado a realização do evento, mas não é possível dizer que ela tenha produzido, sozinha, um resultado financeiro mensurável.
O retorno do UFC mostrou que a ausência de mulheres não era permanente
Dois dias depois do primeiro evento, Turki Alalshikh afirmou que queria mulheres no card seguinte do UFC na Arábia Saudita, segundo a MMA Junkie, ele também projetou uma nova edição para o primeiro trimestre de 2025 e desejava um evento maior.
A declaração mostrou que a ausência de lutas femininas em junho de 2024 não foi apresentada como uma condição definitiva, mas a segunda edição do UFC no país ocorreu em 1º de fevereiro de 2025, com Jasmine Jasudavicius contra Mayra Bueno Silva.
A CBC registrou que as duas foram as primeiras lutadoras a aparecer em um card do UFC na Arábia Saudita.
Esse desdobramento impede uma leitura simplista de que o país teria rejeitado permanentemente a presença feminina, no MMA e também demonstra que a entrada de mulheres como atletas e a contratação de Ring Girls são decisões distintas.
Uma lutadora entra no evento como competidora esportiva, dentro de regras técnicas, categorias de peso e protocolos médicos, a ring girl participa da apresentação, da comunicação visual e da experiência de entretenimento. A autorização de uma função não prova automaticamente a autorização da outra.
A controvérsia de Khabib ajuda a entender o debate, mas não explica a decisão
A ausência em Riade foi frequentemente associada às declarações de Khabib Nurmagomedov sobre Ring Girls. Em 2021, o ex-campeão do UFC afirmou que elas eram as pessoas mais inúteis das artes marciais, e questionou por que o número do round não poderia ser exibido em uma tela e “apresentou a fala como opinião pessoal”.
Arianny Celeste respondeu que as profissionais não atuavam apenas durante a passagem das placas, segundo a declaração reproduzida pela MMA Fighting, elas também participavam de ações promocionais, turnês, aparições públicas e contato com fãs.
Valentina Shevchenko também se posicionou e depois de vencer Lauren Murphy no UFC 266, ela cumprimentou as Ring Girls e disse que ninguém tinha o direito de chamá-las de inúteis, conforme a cobertura do South China Morning Post.
A evolução do modelo no UFC
O UFC consolidou o termo Octagon Girls para suas profissionais de apresentação e com muitos eventos, a função tradicional combina três camadas como mostrar o número do round, representar visualmente a marca e participar de ações promocionais.
Quando a função é apresentada apenas como decoração, fica fácil argumentar que ela é dispensável, mas quando a organização demonstra o trabalho promocional, a relação com fãs e a produção de conteúdo, a função passa a ser entendida como parte de uma estratégia de entretenimento.
Nesse evento saudita conseguimos perceber que naquele momento a função também é um elemento que pode ser retirado, adaptado ou renegociado conforme o território. O UFC conseguiu realizar o card sem Octagon Girls porque o valor central do produto está nas lutas, nos atletas, nos direitos de transmissão e na marca global.
O modelo japonês da RIZIN com as Ring Girls sendo entretenimento
Em 2023, a organização anunciou que as novas RIZIN Girls seriam diferentes das Ring Girls tradicionais. O comunicado oficial afirmou que o projeto incluiria, pela primeira vez, uma unidade vocal e uma unidade de dança, ampliando as atividades para além da função de carregar as placas dos rounds.
A RIZIN informou que as 13 integrantes do projeto RIZIN Girls 2023 atuavam também em festivais e eventos e promoveu uma competição para escolher uma música original. A organização descreveu o grupo como uma unidade de Ring Girls que canta e dança.
Esse movimento ajudou a transformar a profissional em um ativo de mídia, ela deixa de atuar somente no intervalo das lutas e passa a participar de apresentações, vídeos, transmissões ao vivo, votação de fãs e conteúdos próprios.
Não se deve concluir que todas as organizações asiáticas seguem o mesmo modelo e a RIZIN, é um exemplo documentado de expansão da função, não uma regra para o continente.
O modelo da ONE Championship e a presença no ecossistema de fãs
No anúncio oficial do ONE Martial Arts Fan Fest, realizado em Tóquio em 2019, a organização incluiu as Championship Ring Girls em sessões de meet and greet ao lado de atletas e executivos.
O evento reuniu seminários, treinos abertos, competições de esports, encontros com atletas, demonstrações de artes marciais e venda de produtos. As Ring Girls apareceram como participantes da programação de fãs, e não apenas como figuras que circulam durante os rounds. A profissional pode contribuir para a experiência presencial, gerar fotografias, participar de ativações e atuar em espaços de relacionamento com o público.
O valor não está necessariamente em informar o número do round e sim na capacidade de ocupar diferentes, pontos de contato entre organização, fã, evento e conteúdo.
Comparação entre os modelos
| Organização ou mercado | Modelo observado | Principal função ampliada | Relação com o público |
| UFC | Octagon Girls associadas à apresentação global, com adaptação local em Riade | Marca, apresentação e promoção | Eventos, aparições e conteúdo, mas com possibilidade de retirada conforme o mercado |
| WGP | Equipes ligadas a cidades e edições, além de convidadas especiais | Identidade regional e divulgação do card | Aproximação com a cidade-sede e atenção para lutas específicas |
| RIZIN | Unidade de entretenimento com canto, dança, votação e seleção por temporadas | Performance, música, personalidade e mídia | Participação contínua, redes sociais, eventos e formação de comunidade de fãs |
| ONE Championship | Ring Girls integradas a fan fests e encontros com fãs | Experiência presencial e ativação de marca | Meet and greets, eventos paralelos e relacionamento direto |
| UFC na Arábia Saudita em 2024 | Ausência de Ring Girls e de lutas femininas no primeiro card | Localização cultural e redução de elementos potencialmente controversos | Produto concentrado nas lutas, nos atletas e na operação local |
O UFC trabalha com uma marca global que pode retirar componentes da apresentação para entrar em determinado mercado. O WGP usa a regionalização como ferramenta de identidade. A RIZIN transforma o grupo em unidade performática. A ONE insere as profissionais no ecossistema de fãs.
A retirada dessas profissionais pode ser interpretada de duas maneiras opostas. Para alguns observadores, ela elimina uma função baseada na exposição do corpo feminino e reduz a objetificação associada a certos formatos de espetáculo. Para outros, ela retira oportunidades de trabalho e visibilidade para mulheres que escolheram atuar nesse mercado.
O que esse caso ensina sobre globalização do esporte
A globalização do MMA não significa que todos os eventos serão apresentados da mesma maneira.
Uma marca pode ser internacional, mas a experiência no local continua sendo negociada com autoridades, parceiros e públicos específicos.
A lição econômica é que adaptação cultural pode ser parte da estratégia de entrada em um mercado. A lição profissional é que Ring Girls podem ser tratadas como modelos, apresentadoras, influenciadoras, dançarinas, representantes de marca ou integrantes de uma unidade de entretenimento, dependendo do contrato e do projeto.
Será que podemos ver novamente no futuro casos parecidos?
Referências
[1] ESPN Brasil: UFC veta Ring Girls em primeiro evento na Arábia Saudita
[2] UFC: resultados do UFC Fight Night Whittaker vs Aliskerov
[3] CBC Sports: primeira luta feminina do UFC na Arábia Saudita
[4] ESPN: UFC anuncia primeiro evento na Arábia Saudita
[5] MMA Fighting: UFC agenda primeiro card na Arábia Saudita
[6] Council on Foreign Relations: investimentos esportivos da Arábia Saudita e sportswashing
[7] Project on Middle East Political Science: investimentos esportivos do Golfo
[8] MMA Junkie: Turki Alalshikh queria mulheres no próximo card saudita
[9] MMA Fighting: Arianny Celeste responde às críticas de Khabib
[10] South China Morning Post: Valentina Shevchenko defende as Ring Girls
[11] WGP Kickboxing: time de Ring Girls do WGP 38 em Curitiba
[12] WGP Kickboxing: anúncio de Carol Portaluppi no WGP 27
[13] Revista Quem: Carol Portaluppi como Ring Girl
[14] Lance!: WGP Kickboxing no Rio de Janeiro
[15] RIZIN: audição RIZIN Girls 2023
[16] RIZIN: concurso de música original para as RIZIN Girls
[17] RIZIN: seleção das RIZIN Girls 2026
[18] ONE Championship: programação do ONE Martial Arts Fan Fest


















